66% dos advogados usam IA em conta pessoal. O que isso arrisca
Pesquisa da OAB com Stanford: dois em cada três advogados usam IA em conta pessoal ou mista. O risco para o sigilo e o que o escritório deve fazer.

- Pesquisa da OAB, do IDP e da Universidade Stanford com 18.668 advogados, apresentada em 24 de agosto de 2026, mostra que 66% usam IA em conta pessoal ou mista.
- Na conta pessoal, o contrato é da pessoa, não do escritório: o escritório não controla o que entra, não vê o histórico e não apaga nada quando alguém sai.
- O sigilo profissional é dever do advogado, não do fornecedor da ferramenta, e violá-lo é infração disciplinar prevista no Estatuto da Advocacia.
- A solução não é proibir a IA: é conta da casa, regra escrita sobre o que pode entrar, formalização com o cliente e equipe treinada.
Dois em cada três advogados brasileiros usam inteligência artificial em conta pessoal ou mista. O número é da maior pesquisa já feita sobre IA na advocacia no país, apresentada pela OAB em 24 de agosto de 2026. Para escritórios, é um risco de sigilo que já está acontecendo, e quase sempre fora do radar dos sócios.
O que a pesquisa da OAB com Stanford mostrou
A pesquisa "Governança de IA e Prática Jurídica Digital" foi feita pelo Conselho Federal da OAB, pelo IDP e pelo Deliberative Democracy Lab da Universidade Stanford. Cerca de 250 mil advogados foram convidados e 18.668 responderam.
Os números mais relevantes para quem administra um escritório:
- 66% usam IA em conta pessoal ou mista, misturando uso pessoal e profissional.
- 77% dos que usam IA citaram o ChatGPT.
- 53% pagam por uma versão da ferramenta.
- 24% usam de uma a duas horas por dia.
Segundo a OAB, os resultados vão servir de base para um provimento do Conselho Federal sobre o uso de IA na advocacia. Ou seja: a regra que vem aí vai partir desse retrato.
Qual é o problema da conta pessoal
O problema não é a ferramenta. É quem manda nela.
O contrato é da pessoa, não do escritório. Quando o advogado cria uma conta pessoal, é ele quem aceita os termos. O escritório não sabe o que foi colado ali, não vê o histórico e não consegue apagar nada quando essa pessoa sai.
O treino pode estar ligado. Nos planos pessoais da OpenAI, Free, Plus e Pro, as conversas podem ser usadas para treinar os modelos por padrão, a menos que o usuário desligue a opção. Na Anthropic, os usuários dos planos pessoais do Claude escolhem se permitem o treino, e quem permite tem os dados guardados por até cinco anos. Nos planos empresariais das duas, o padrão é não treinar. Em conta pessoal, a proteção depende de cada advogado ter mexido na configuração certa.
Os dados não ficam no Brasil. A OpenAI oferece armazenamento de dados em regiões como Europa, Estados Unidos, Japão e Índia, só nos planos empresariais. O Brasil não está na lista.
O sigilo profissional é do advogado. Não passa para o fornecedor da ferramenta quando o documento é colado na conversa.
O Estatuto da Advocacia trata a violação do sigilo profissional, sem justa causa, como infração disciplinar (art. 34, VII). E a LGPD prevê multa de até 2% do faturamento, limitada a R$ 50 milhões por infração, para quem trata dados pessoais sem as garantias devidas.
O que a OAB já recomenda
A Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB, aprovada em novembro de 2024, já responde boa parte das dúvidas:
- Sigilo: atenção especial ao inserir dados que possam tornar o cliente identificável.
- Escolha da ferramenta: diligência para garantir que o fornecedor proteja as informações e permita não usar os dados para treinamento.
- Supervisão: "a dependência excessiva de ferramentas de IA é inconsistente com a prática da advocacia". Sócios e gestores devem supervisionar o uso por associados, estagiários e assistentes.
- Cliente: formalizar por escrito, antes de começar, a intenção de usar IA, com propósito, riscos, medidas de segurança e revisão humana.
Um detalhe da pesquisa chama atenção. Depois de debater o tema em grupo, o apoio dos advogados à obrigação de informar o cliente caiu de 48,7% para 37%. A recomendação da OAB, porém, já orienta essa formalização. Quem deixar para depois do provimento pode ter que refazer o trabalho com pressa.
Proibir não funciona
A reação mais comum de um sócio que descobre esses números é proibir o uso. Não funciona. Segundo a OAB-SP, três em cada quatro advogados já usam IA no trabalho; proibir só empurra o uso para o celular, onde ninguém vê.
O caminho que funciona é trazer o uso para dentro, com regra.
O que o escritório deve fazer
- Descobrir quem usa o quê. Um mapa simples: quais ferramentas, em qual conta, com que tipo de documento.
- Ter a conta da casa. Um plano empresarial, contratado pelo escritório, com treino desligado e controle de quem entra e sai.
- Escrever o que pode entrar. Quais documentos podem ser usados, quando anonimizar, o que nunca sai do sistema do escritório.
- Formalizar com o cliente. Como a Recomendação 001/2024 orienta, por escrito e antes de usar.
- Treinar a equipe no trabalho real. Usar a conta certa, conferir citações e saber o que fazer quando algo dá errado.
- Registrar. Quem foi treinado, quando e em quê. Se o escritório precisar explicar o uso de IA um dia, esse registro é parte da defesa.
É por aí que a consultoria de IA da Elev começa: um diagnóstico que mostra quantas pessoas da equipe usam IA fora do radar e com que tipo de dado. Você sai com um número e decide o que fazer com ele. Fale com a gente.
Fontes
- Advocacia 4.0: OAB abre fórum sobre inteligência artificial com pesquisa que ouviu 18,6 mil profissionais, OAB, agosto de 2026.
- Pesquisa com 18 mil advogados revela opiniões sobre uso de IA na advocacia, Correio Braziliense, agosto de 2026.
- Conselho Federal da OAB anuncia plano nacional para integrar inteligência artificial à advocacia, OAB, junho de 2026.
- Três em cada quatro advogados usam inteligência artificial no trabalho, OAB-SP, março de 2026.
- Recomendação nº 001/2024, Conselho Federal da OAB.
- Estatuto da Advocacia, Lei 8.906/1994 e LGPD, Lei 13.709/2018.
- Como seus dados são usados para melhorar os modelos e residência de dados no ChatGPT, OpenAI.
- Atualização dos termos para consumidores, Anthropic, agosto de 2025.
Perguntas frequentes
Advogado pode colocar dados de cliente no ChatGPT?
A OAB não proíbe o uso de IA, mas a Recomendação 001/2024 pede atenção especial ao inserir dados que tornem o cliente identificável e diligência na escolha de ferramenta que proteja as informações e permita não usar os dados para treinamento. Em conta pessoal, o escritório não tem essas garantias por contrato.
A versão paga do ChatGPT resolve o problema do sigilo?
Não necessariamente. Os planos Free, Plus e Pro são contas pessoais: as conversas podem ser usadas para treinar os modelos por padrão, a menos que o usuário desligue a opção. Os planos empresariais, como Business e Enterprise, não usam os dados para treino por padrão e ficam sob controle do escritório.
Preciso avisar o cliente que uso IA?
A Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB orienta formalizar por escrito ao cliente, antes de começar, a intenção de usar IA, com propósito, riscos, medidas de segurança e revisão humana. A OAB prepara um provimento sobre o tema, com base na pesquisa feita com Stanford.
A OAB vai proibir o uso de IA pelos advogados?
Não é o que indica. O Plano Nacional de Integração da IA na Advocacia, anunciado em junho de 2026, fala em uso responsável, capacitação e boas práticas. O que se discute são regras de sigilo, supervisão humana e transparência.
Qual a diferença entre conta pessoal e conta corporativa de IA?
Na conta corporativa, o contrato é do escritório: ele define quem usa, vê o histórico, desliga o acesso de quem sai e tem garantias de que os dados não treinam o modelo. Na conta pessoal, cada advogado aceita os termos por conta própria, e o escritório fica sem controle nenhum.
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Publicado em 23 de setembro de 2026